O toque frio do chão de casa e os suspiros que cantam pelo balançar das árvores lá fora não me deixam dúvidas quanto ao fim da festa. O barco que fora bravamente ao mar aflito retornou e, sem nada nas mãos, agora só posso olhar para este círculo vazio, oco, incógnito, cercado por outras camadas tonteantes e circulares. Desde a minha chegada, tenho observado a forma como cada parte se move e modifica. A primeira é formada por feridas que vão se fechando mas subtamente se abrem e voltam ao início, sangram e parecem gritar em seu silêncio. A próxima camada tem flores mas algumas parecem criadas, de plástico. As que são reais murcham ás vezes. A seguinte é feita de cordas, várias delas; seguem um rítimo vagaroso, as vezes param subtamente e em outros momentos recuam como um arrependimento, tal qual alguém que estava deixando um barco partir mas parce acordar e querer puxar com todas as forças aquilo que quer ir, ou que já foi. O último revestimento, aquele que guarda todos os outros, é feito de rocha e sombra, parece deixar claro que olhares ou toques não são bem vindos.
Tenho a sensação constante de que a parte central, sempre escura, está prestes a invadir todas as outras, tornar tudo uma coisa só e abreviar a história. Nada acontece e o suspense segue. Ao colocar a mão no peito, em toque suave, sinto ter nas veias o mesmo vermelho daqueles que vivem o meu querer; minha alma é feita da mesma poeira, ainda que não tão vibrante quanto a deles. Percebo que ali, naquela fortaleza, morava meu pequeno infinito, broto do coração quando ainda era bem menino. Não foi capaz de deixar sua morada e ganhar ao mundo. Morrerá junto a mim, onde sempre viveu, agora orbitando em algum ponto do universo de dor e seus anéis que tomaram sua casa. Uma vez que vivaz era o que hoje respira com aflição, a alma tinge-se pela cor indefinida da falta.
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