romance moderno

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de tanto escorrer dos olhos teus, por vezes pendurado como lágrima em pálpebra, soltei-me rumo a estas águas que por muito foram guardadas

agora distante, de onde via nos retratos o laço das águas com o céu, soube do perdão deste mar

soube, pois já entregue em suas imensas mãos salgadas e azuis, fez recusa em me levar

nossa morada perdeu o teto e algo a mais ao se abrigar no pobre tempo que achei para ti 

o que tamanho desaguar levou de mim fora nada além das memorias mais inconsoláveis, que perduravam feito rocha e sombra sobre o memorar de nossos acasos mais alegres

dos dias de cinema ao bar de jazz, palco de minhas primeiras e mais sinceras desculpas, jamais sonhei em ti pelo caminho

em tamanha imensidão coube a dor de um tempo de luto, de presenças breves e dos abraços afrouxados, que tanto me cercaram mesmo em meus dias enfeitados de surpresas felizes

fez de bocejo meu sorriso, quando em bom alvitre me recordava de nossos encontros de encher o coração e também os de partir

no vasculhar de um canto escuro da memória, em outra esquina deste casarão de enormes quadros de nós dois, cinzas caem como neve. Daqui se vê saudade, pedaços meus espalhados pelo tempo ou jogados ao vento por ti ou por outrem. Um amontoado de nada, em dias ferozes e de puro desagrado.

se o toque dos dedos meus jamais secar teus mares revoltos outra vez, lembre-se de que amei como melhor podia, ainda que não como precisava, ainda que não a vida inteira.

studio bordon (14.07.2022)