Caminho por entre espinhos
Em minhas tardes,agora sozinhas,me dou conta de que não sobrou nada para buscar.Não soubrou ninguém para ajudar.Depois de muito tentar e me movimentar,resolvi parar.Assim como o reino dos homens,o meu está flagelado pela desolação.Em cada rio que eu tentei cruzar nesses anos todos,tem um pouco do que eu fui.Um pouco das minhas lágrimas e dos meus fracassos.O maior deles,minha eterna sombra,minha eterna ferida,traduz-se agora em noites mal dormidas e sonhos intranquilos.Tudo leva a crer que ainda há tempo pela frente,mas no campo dos derrotados existe um ensinamento antigo,que dita aos recém chegados a dicotomia do tempo,que pode não lhe trazer a chance de tentar de novo mas sim a imposição de um sofrimento prolongado e punitivo.Como se não bastasse o hoje,ainda há um futuro.
Nobre guerreiro de alma leve
Há de arder e pesar quando o mundo não ouve minha voz,não entende meu falar.Aumenta a solidão,mas não há reação se sentimentos e emoções são tão específicos a ponto de serem impossíveis de se verbalizar.Assim conheci a inquietante angústia de aguardar o inevitável.Quando sonhar,lutar e perder lhe traz o futuro indesejado,todo fim de tarde é momento de olhar o sol como quem se despede.
Nobre guerreiro de alma leve,a complexidade de suas emoções fez com que,em um exercício de fuga,desejasse profundamente a simplicidade,ao olhar as nuvens e sonhar em viver uma vida sem se preocupar em ser nada além do que já se é.Mas ao contrário,vivendo suas noites mais escuras,estando entre a cruz e a espada,finalmente entendeu que a sorte sempre escolhe um lado,e para que alguém vença,há de ter um perdedor do outro lado.Lamento que sua sina tenha sido o infortúnio de sempre ser o lado de lá,o eterno quase.Nobre guerreiro de alma leve,que durmas só por um instante.
Rubro como púrpura
O grito alto do silêncio do divino falho,que parece não testemunhar a passagem dos que aqui estão,faz-me crer viver uma história em vão.Faz-me crer na solidão irônica,quando todos sentem junto,ao mesmo tempo.Uma história não contada é uma chave jogada ao mar,onde ninguém irá buscar.Em meus dias mais difíceis me recolho,vivenciando o luto de meus fracassos e renegando a frustração de uma vida amarga.Uma vida ruim,que mais parece roteiro sem fim,largado no meio,sem mais nada a acontecer.Se o fim é não ter um fim,ao menos hei de crer que histórias foram feitas para serem contadas.Todas elas.E nesta história sobre histórias,lhes juro que busquei evitar o sofrimento como entretenimento,mas o que posso fazer se a dor e seus detalhes mais miúdos figuram dentre as inescapáveis experiências emocionais humanas? É quase como dizer que somos,por definição,um emaranhado de sensações e dores que borbulham sem parar durante toda à vida.Vive acesa em meu coração a chama do caos,minha natureza,meu guia rumo a minha própria destruição.Tudo é o que é e nada mais.

