Das incertezas em alto mar
16.NOV.2020
                            
             
                                                                                       I
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   Queria eu que as lágrimas do meu nascer só fossem vistas outra vez no choro forte do fim de minha vida,no rosto daqueles poucos que lamentem minha partida.Já tentei despir-me de minhas emoções,como se fosse um barco liso,sem arranhões,de convés limpo e sem história,na busca infame de nunca mais viver sequer um dia cinzento.Mas as forças que governam meu caminhar me fizeram assim,errante e sentidor.
O silêncio do fingir não sentir fez-se um grito alto das memórias de minha história de pranto e de glória por estes mares que já enfrentei.Se em minha biblioteca de sentimentos figura,na prateleira mais alta,a nostalgia,eu tinha de buscar em águas passadas a força de que precisava.
Sentamos eu,as fotografias rasuradas e as lágrimas que tanto insistem em me perseguir.Em muitas daquelas lembranças morava gente querida que hoje habita dimensões distintas e talvez distantes.Tais ausências foram a prova cabal de que minhas respostas,se ali já estiveram,em conselhos e palavras de amor,partiram junto com seus mensageiros.Afinal,o que diriam eles sobre viver um sonho com hora marcada para acabar ou sobre as dores de amor,que não deveriam ser dores,se são de amor? 
Quando muito ao futuro,pouco basta para logo perceber a temerária aventura em ondas que de tão incertas fariam de mim uma daquelas almas pobres que se alimentam em fontes de aflições irracionais que não trazem coisa alguma se não surtos ansiosos e prematuros.É preciso ancorar-se no presente,há de vir daqui e do agora a salvação.
Se tudo que me resta é escrever pra tirar do peito esse nó,me presenteio com uma generosa dose de otimismo e reconheço em meu peito essa estante de instantes,de mares raivosos mas também de águas belas que refletem a luz do sol em dias de calmaria.Enquanto a tempestade não cessa,vou aprendendo a navegar na escuridão e quem sabe eu volte a ter o brilho nos olhos de quem vivia com o coração em paz,com teus processos,no tempo que tiver que ser e com um mar de possibilidades à vista antes que eu vire apenas uma fotografia na estante de alguém. 


                                                                                      II
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A imensidão de água negra cobriu de fora a fora o convés da embarcação.Jamais achei que ia ver num caminho destinto nossa salvação...
                                                                                                                                Fresno